A maioria dos mergulhadores que já apagaram conta a mesma coisa: não houve momento de luta, nem sensação de afogamento. Num instante estavam terminando um mergulho ou uma apneia; no seguinte, tossiam na superfície com a dupla segurando a cabeça deles. Alguns nem se lembram de ter perdido a consciência.

É isso que faz do apagamento hipóxico a questão central da segurança na apneia. Ele não é raro entre quem empurra os próprios limites, não dá sinais de alerta confiáveis e, na água, pode virar afogamento em questão de instantes. A boa notícia é que ele é bem conhecido. As causas são conhecidas, o momento em que ocorre é previsível e as regras que impedem que vire um acidente são simples. Este artigo começa pelo mecanismo, porque as regras são muito mais fáceis de respeitar quando você entende por que elas existem.

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a pressão ambiente a 10 m em relação à superfície
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um mergulhador na água, uma dupla vigiando
30 s
de vigilância mínima após a emersão, como se costuma ensinar

O que é um apagamento hipóxico

Durante uma apneia, seu corpo continua consumindo oxigênio. O cérebro é o órgão mais sensível à falta dele: quando a pressão de oxigênio no sangue arterial cai abaixo de um nível crítico, ele não consegue mais manter a consciência e desliga. Isso é um apagamento hipóxico, também chamado de síncope ou, em inglês, blackout. É uma espécie de desligamento protetor, já que um cérebro inconsciente consome menos, mas tira de você qualquer capacidade de agir.

Fora da água, um apagamento durante a apneia costuma ser breve: com a consciência perdida, o reflexo respiratório assume e a respiração volta sozinha. Na água, esse mesmo reflexo vira o perigo. Se as vias aéreas estiverem abaixo da superfície quando a respiração voltar, a pessoa inala água. Por isso um apagamento na água é uma emergência, e um apagamento na cama, embora nunca seja trivial, em geral não é.

Apneístas treinados toleram níveis de oxigênio no sangue surpreendentemente baixos durante apneias máximas3. É justamente essa tolerância que os torna vulneráveis: quanto melhor você fica em manter a calma em hipóxia, mais perto do limiar consegue chegar sem perceber.

Por que ele costuma chegar sem aviso

A sensação que encerra a maioria das apneias, a vontade de respirar seguida das contrações do diafragma, é provocada principalmente pelo aumento do dióxido de carbono, detectado por quimiorreceptores do tronco encefálico e das artérias carótidas2. Seu corpo tem um alarme sensível para o CO₂ e um bem mais fraco para o oxigênio. A falta de oxigênio, sozinha, causa pouco desconforto. À medida que piora, tende mais a embotar o julgamento e a atenção do que a gerar alarme.

Numa apneia normal, essas duas linhas do tempo estão bem separadas: o CO₂ empurra você a respirar muito antes de o oxigênio ficar crítico. Tudo o que as aproxima aumenta o risco. Os dois culpados clássicos são a hiperventilação antes da apneia e, na profundidade, a subida.

Seu corpo tem um alarme estridente para o dióxido de carbono e quase nenhum para o oxigênio. O apagamento acontece no espaço entre os dois.

Hiperventilação: o gatilho clássico

Hiperventilar é respirar mais rápido ou mais fundo do que o corpo precisa. Isso elimina CO₂ do sangue, às vezes de forma drástica. O que quase não muda é o oxigênio: em repouso, a hemoglobina do sangue arterial já está praticamente saturada, então respirações extras acrescentam muito pouco à sua reserva.

A consequência foi descrita por Craig em 1961, num estudo com nadadores que perderam a consciência debaixo d’água1. Depois de hiperventilar, os nadadores começavam a apneia com o CO₂ baixo. A vontade de respirar chegava bem mais tarde que o normal, mas a reserva de oxigênio não tinha aumentado na mesma proporção. O oxigênio atingia um nível crítico antes de o alarme do CO₂ disparar, e eles perdiam a consciência ainda se sentindo capazes de continuar.

Como a hiperventilação desliga o alarme CO₂, respiração normal CO₂ após hiperventilação Oxigênio
Esquema, unidades arbitrárias Limiar da vontade de respirar (CO₂) Limiar de apagamento (O₂) tempo → 0 ① Vontade de respirar, oxigênio ainda alto ② Oxigênio baixo demais ③ Vontade após hiperventilar: tarde demais
Figura 1. Representação esquemática. Com respiração normal (azul contínuo), o CO₂ provoca a vontade de respirar (①) quando o oxigênio ainda está confortável. A hiperventilação baixa o CO₂ inicial (azul tracejado), mas quase não muda o oxigênio: o alarme (③) agora chega depois que o oxigênio cruzou o limiar de apagamento (②). Com base no mecanismo descrito por Craig (1961).

A armadilha é que a hiperventilação parece funcionar. A apneia fica mais longa e mais confortável, pelo menos no começo. Na verdade, você só adiou o aviso e deixou o perigo onde estava. Por isso toda escola séria de apneia a proíbe, e por isso a respiração de preparação ensinada no guia de técnicas de respiração é calma e lenta, com expiração longa, e não rápida e forçada.

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Como saber se você ventilou demais

Formigamento nos dedos ou em volta dos lábios, tontura ou uma leve sensação de desligamento antes da apneia são sinais de CO₂ baixo. Se notar isso, não comece a apneia: respire normalmente por um ou dois minutos até passar.

Apagamento na subida na apneia em profundidade

A profundidade acrescenta um segundo mecanismo, muitas vezes chamado de apagamento em águas rasas (shallow water blackout). O termo já foi usado para coisas diferentes ao longo dos anos, então vale descrever o que realmente acontece2.

A pressão da água aumenta cerca de uma atmosfera a cada 10 metros. A 10 m, a pressão ao seu redor é o dobro da superfície, e o ar dos pulmões é comprimido a cerca de metade do volume. O oxigênio desse ar também é comprimido, então a sua pressão parcial, o empurrão que faz o oxigênio passar dos pulmões para o sangue, aumenta. Na profundidade, seu sangue se carrega de oxigênio com facilidade, mesmo enquanto você o consome.

Na subida, o processo se inverte. Com a queda da pressão, os pulmões se expandem e a pressão parcial do oxigênio restante cai, rápido, e mais rápido ainda no trecho mais raso da subida, onde a pressão muda mais em termos relativos. Um mergulhador que se sentia bem no fundo pode ver a pressão de oxigênio nos pulmões cair abaixo do que o cérebro precisa nos últimos metros ou logo após emergir. Como o sangue leva alguns instantes para ir dos pulmões ao cérebro, o apagamento pode ocorrer depois da emersão e até depois de uma primeira respiração.

O oxigênio nos pulmões durante um mergulho em profundidade Profundidade Pressão parcial de O₂ nos pulmões
Risco máximo Superfície Fundo Descida Fundo Subida Superfície Limiar de apagamento O₂ nos pulmões (esquema) A pressão eleva o O₂ pulmonar A pressão cai: o O₂ despenca emersão tempo →
Figura 2. Representação esquemática, não são dados medidos. Na descida, o aumento da pressão eleva a pressão parcial de oxigênio nos pulmões. Na subida, a queda da pressão a faz despencar, e ela pode cruzar o limiar de apagamento nos últimos metros ou nos primeiros instantes após a emersão. Com base no mecanismo descrito por Lindholm e Lundgren (2009).

Daí saem duas conclusões práticas. Primeiro, sentir-se bem no fundo diz pouco sobre como você vai se sentir na superfície. Segundo, a emersão não é o fim do mergulho: é um dos seus momentos mais perigosos. A apneia em profundidade só deve ser aprendida em um curso certificado (AIDA, Molchanovs, SSI, PADI Freediver ou equivalente), onde esses mecanismos são ensinados na água por instrutores qualificados.

Perda de controle motor: a samba

Entre o controle total e o apagamento completo existe às vezes um estágio intermediário: a perda de controle motor, que os apneístas chamam de samba. O mergulhador ainda está parcialmente consciente, mas não controla mais direito o próprio corpo. Pode parecer tremor ou movimentos bruscos da cabeça e dos braços, um olhar perdido, incapacidade de manter o rosto fora da água ou de completar um protocolo de superfície simples.

A samba é sinal de hipóxia grave. Significa que o mergulhador foi longe demais, e ela pode evoluir para um apagamento completo. A dupla deve tratá-la exatamente como um apagamento: chegar perto, apoiar a cabeça e manter as vias aéreas fora da água até o mergulhador estar claramente recuperado. O mergulhador deve encerrar a sessão.

O risco no treino a seco

Treinar fora da água, deitado numa cama ou num sofá, é a forma mais segura de praticar apneia estática por conta própria, e o ambiente certo para as tabelas de CO2 e a maioria dos exercícios. O risco é menor por dois motivos: em geral você não busca o seu máximo absoluto e, se perder a consciência, a respiração volta no ar, e não debaixo d’água.

Menor não quer dizer zero. Um apagamento em pé pode causar uma queda e um traumatismo craniano. Um apagamento ao volante seria obviamente catastrófico. E prender a respiração numa banheira, numa piscina ou em qualquer água sem uma dupla treinada reproduz exatamente as condições de um afogamento: já houve acidentes fatais durante treinos solitários de apneia na água, inclusive em banheiras e piscinas. A seco quer dizer fora da água.

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Regras inegociáveis

Nunca pratique apneia sozinho na água, seja qual for a profundidade. Por conta própria, só a seco, deitado ou sentado em um lugar seguro: nunca em pé, dirigindo, na banheira ou perto da água. Nunca hiperventile. Pare ao primeiro sinal de alerta. Se você tem doença cardíaca ou pulmonar, epilepsia ou está grávida, consulte seu médico antes de qualquer treino de apneia.

O sistema de dupla

Todas as regras de segurança na apneia se resumem a uma ideia: raramente é o apagamento em si que mata, e sim a ausência de alguém para ajudar. Um mergulhador que apaga ao lado de uma dupla atenta e treinada em geral volta a respirar em poucos instantes. O sistema de dupla é a forma de organizar essa presença.

  1. Um em cima, um embaixoSó uma pessoa faz apneia por vez. A outra fica na superfície, respirando normalmente, totalmente concentrada no mergulhador e perto o bastante para alcançá-lo em segundos.
  2. A dupla conhece o planoAntes de cada mergulho ou estática, combinem o tempo ou a profundidade-alvo e um sinal. Na estática, um toque e um sinal com o dedo em intervalos regulares confirmam que o mergulhador está respondendo.
  3. Na profundidade, a dupla vai ao encontroA dupla desce para encontrar o mergulhador na parte final da subida e sobe ao lado dele observando o rosto, porque é ali que o apagamento é mais provável.
  4. Vigiar até a recuperação completaApós a emersão, continue observando de perto. Muitos cursos ensinam pelo menos 30 segundos; o critério real é o mergulhador respirar normalmente, responder e estar claramente lúcido.
  5. Trocar de papel só após a recuperaçãoA dupla só mergulha quando o mergulhador anterior estiver totalmente recuperado e pronto para vigiar por sua vez.

Uma dupla só serve se estiver treinada para reconhecer um problema e reagir. Prender a respiração ao lado de um amigo que não sabe como é uma samba não é sistema de dupla.

O que fazer se sua dupla apagar

Esta seção explica o princípio geral para que você entenda o que um curso vai ensinar. Não é um treinamento de primeiros socorros, e lê-la não prepara você para fazer um resgate. As técnicas de resgate precisam ser aprendidas e praticadas na água, com um instrutor.

O princípio é proteger as vias aéreas e ajudar a respiração a voltar. O socorrista tira o rosto do mergulhador da água e o mantém ali, apoiando a cabeça e deixando boca e nariz livres. A máscara é retirada para que o rosto fique exposto ao ar. Depois vem a sequência clássica, muitas vezes resumida como soprar, tocar, falar: soprar nos olhos e no rosto, dar tapinhas na bochecha e falar com o mergulhador, mandando-o respirar. Esses estímulos muitas vezes ajudam a respiração a voltar. Se ela não voltar rápido, a situação exige acionar o serviço de emergência e aplicar as técnicas de ventilação de resgate e reanimação ensinadas em um curso de primeiros socorros e de resgate em apneia.

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Depois do incidente

Um mergulhador que apagou na água deve parar pelo resto do dia, mesmo que se sinta bem. Uma avaliação médica é recomendada depois de qualquer apagamento na água, e é indispensável se ele pode ter inalado água ou se depois surgirem tosse, falta de ar ou desconforto no peito.

Sinais de alerta que às vezes aparecem

O mais importante a saber sobre os sinais de alerta é que eles não são confiáveis. Muitos apagamentos acontecem sem nenhum deles. Mesmo assim, quando aparecem, devem encerrar a apneia na hora. Para o mergulhador, os sinais podem incluir:

  • Alterações visuais: visão em túnel, escurecimento ou dificuldade de focar.
  • Sensações incomuns: formigamento, sensação de calor ou de bem-estar, ou o sumiço repentino do desconforto no fim de uma apneia difícil.
  • Pensamento alterado: confusão, perda da noção do tempo ou um estado vago, como de sonho.
  • Perda de coordenação: mãos desajeitadas, dificuldade de fazer um gesto simples.

Repare que várias dessas sensações são agradáveis, e não alarmantes. Esse é o problema da hipóxia: ela não assusta você, ela desarma você. A dupla pode ver sinais que o mergulhador não percebe: olhar vazio, resposta lenta ou ausente a um sinal, lábios ficando arroxeados, pequenos espasmos, uma pernada que desacelera ou para, ou ar escapando pela boca.

As contrações, por outro lado, não são sinal de alerta de apagamento. Elas são o alarme do CO₂ fazendo o seu trabalho, como explicamos no nosso artigo sobre contrações na apneia. Mas cuidado com a conclusão inversa: não ter contrações não significa que você está seguro, principalmente se ventilou demais antes. No treino a seco, o timer do Anima Apnea permite anotar quando chega a sua primeira contração. Se de repente ela aparecer muito mais tarde que o normal, pergunte-se como você respirou antes da apneia.

Perguntas frequentes

É possível ter um apagamento na apneia estática a seco?

Sim. É muito menos provável se você treinar bem abaixo do seu máximo e nunca hiperventilar, mas é possível. Por isso as apneias a seco são feitas deitado ou sentado em um lugar seguro, nunca em pé, dirigindo, na banheira ou em qualquer água.

Um apagamento na água é sempre fatal?

Não. Com uma dupla treinada que chega imediatamente e mantém as vias aéreas fora da água, o mergulhador costuma se recuperar rápido. Sozinho, o mesmo apagamento pode levar ao afogamento. A diferença é a dupla.

Um pouco de hiperventilação antes da apneia é aceitável?

Não. Respire com calma antes da apneia e depois faça uma última inspiração completa, sem forçar. Se sentir formigamento nos dedos ou nos lábios, ou tontura, você ventilou demais: espere respirando normalmente antes de começar.

Por quanto tempo a dupla deve vigiar depois de um mergulho?

Até o mergulhador se recuperar por completo: respirando normalmente, respondendo e claramente lúcido. Muitos cursos ensinam um mínimo de cerca de 30 segundos após a emersão, porque o apagamento pode ocorrer nos primeiros instantes na superfície.

As contrações significam que estou prestes a apagar?

Não. As contrações são provocadas principalmente pelo aumento do CO2, não pela falta de oxigênio. Mas o contrário também vale: não ter contrações não significa que você está seguro, principalmente depois de hiperventilar.

Devo procurar um médico depois de um apagamento?

Sim, depois de qualquer apagamento na água, se você pode ter inalado água ou se a recuperação não for rápida e completa. Tosse, falta de ar ou desconforto no peito nas horas seguintes também exigem atenção médica.

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Fontes

  1. Craig AB Jr. Causes of loss of consciousness during underwater swimming. Journal of Applied Physiology, 1961.
  2. Lindholm P, Lundgren CEG. The physiology and pathophysiology of human breath-hold diving. Journal of Applied Physiology, 2009.
  3. Bain AR, Drvis I, Dujic Z, MacLeod DB, Ainslie PN. Physiology of static breath holding in elite apneists. Experimental Physiology, 2018.
LM
Lucas Massoni

Criador do Anima Apnea, o app de treino de apneia estática. Escreve sobre método, fisiologia e segurança no treino de apneia.